ESQUERDA-DIREITA: UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA GEOGRÁFICA SOBRE O MUNDO

Atualizado: Jun 13

Por Rogério Haesbaert


Um amigo que não é da área de Ciências Sociais me fez a clássica pergunta sobre a diferença entre comunismo e socialismo. Respondi que dava um livro (e não seria eu a escrever...), mas resolvi voltar à questão maior, entre esquerda e direita, pois se há um elo que deveria unir comunismo e socialismo é o fato de estarem “à esquerda” do quadro político.


Começo afirmando meu “lugar de fala”: sou geógrafo, e falo a partir da complexa realidade carioca-brasileira-latino-americana em plena pandemia de coronovaríus. Nenhum ponto de vista pode ser destituído de suas bases históricas e geográficas. Também é importante definir para quem escrevemos – ou pretendemos escrever, pois nem sempre os alcançamos. Penso no meu amigo e num público o mais amplo possível.


Em primeiro lugar, é óbvio, a questão é política, e política envolve poder. Alguns diriam, de saída, “quem tem poder e quem não tem poder”, “quem é político e quem não é”. Infelizmente a palavra adquiriu uma conotação estreita no mundo moderno, vinculada à política de Estado, como se todos os nossos atos não fossem também atos políticos, atos envolvidos em relações de poder, e não só coercitivo, de força (física, inclusive), mas também de convencimento/consenso, que é o “poder” que as palavras ainda pretendem ter (mesmo com todo o descrédito que muitas palavras, como as da ciência, vêm sofrendo). E não esqueçamos que sentimentos – o medo e a sedução, por exemplo – também estão envolvidos, e às vezes de modo decisivo, nas relações de poder.


Definir comunismo e socialismo ou, mais amplamente esquerda e direita, pode ser, também, uma discussão sobre os meios considerados mais adequados para fortalecer um tipo de poder – ou para resistir à sua força, o que também é poder (uma espécie de contra-poder). Durante muito tempo – e hoje isso parece voltar – comunismo e socialismo foram estigmas cruéis, e a perseguição a comunistas chegou a se igualar à perseguição a judeus, no nazismo. Mas para não simplificarmos demasiado as coisas, também houve a mesma atrocidade em relação a “direitistas” em regimes ditos comunistas, como durante o stalinismo. Talvez o que igualasse os dois fosse a aliança povo-nação, a defesa ferrenha do nacionalismo, seja ele pan-russo ou pan-germânico. Por isso falar em comunismo/socialismo, ou em esquerda/direita, é complicado, envolve obrigatoriamente outras variáveis, as quais não funcionam na mesma lógica, como a questão nacional (incluindo o ultranacionalismo como sobrevalorização da nação), a questão étnica (incluindo o etnicismo/racismo como sobrevalorização de uma “raça”), a questão religiosa (incluindo os fundamentalismos religiosos) etc.


Voltemos à questão da direita/esquerda, agora como geógrafos. Penso que o espaço é a esfera da nossa vida que envolve, prioritariamente, a nossa capacidade de mudança de perspectiva – simplificando, a propriedade mais importante do espaço seria permitir outros “pontos de vista”, começando por seu sentido literal: olhar para um lado ou para outro. Desse modo, esquerda e direita nasceriam, literalmente, da capacidade que temos de olhar para um lado ou de olhar para outro. Na verdade, é óbvio que não se trata de olhar “para o lado esquerdo” ou “para o lado direito”, mas são dois modos de olhar, desde a escala micro, cotidiana, local, até a escala do mundo, global.


Já fiz uma crônica, há alguns anos, a partir da concepção, muito didática, do filósofo Gilles Deleuze, sobre esquerda e direita, e associei-a diretamente à questão geográfica das escalas, da multi ou transescalaridade, que gostaria de retomar brevemente aqui. Deleuze fala que a visão da direita é inversamente proporcional à visão da esquerda: enquanto a direita começa a olhar o mundo pelo micro, valorizando o individual, o privado (sempre em primeiro lugar os interesses individuais), a esquerda começa pelo mundo, pelo coletivo, pelo comum, para somente ao final chegar ao indivíduo. A pandemia atual escancarou esse dilema: enquanto aqueles mais à direita defendem seus "direitos individuais" de irem pra rua, abrirem seus negócios e garantirem o lazer, aqueles minimamente à esquerda, mesmo que não estejam em grupo de risco, admitem que precisam abrir mão de benesses pessoais para proteger a si e aos outros (a família, os moradores do prédio, do bairro, da cidade ... ). Mais do que isso, tomam consciência da tremenda desigualdade que representa ter moradia digna e alimentação garantida, frente a tantos que não têm assegurados esses direitos básicos de vida. Naquela crônica, eu concluía:

Ser de esquerda é lutar, ao mesmo tempo, pela universalidade da justiça e pela multiplicidade que faz a riqueza cultural e natural do mundo. Ser de esquerda, finalmente, é reconhecer que, sem abrir mão da riqueza de nossas individualidades, só continuaremos a existir se pensarmos e atuarmos de modo solidário, coletivamente. É acreditar que somos todos corresponsáveis, do global ao local, pela sobrevivência digna e mais igualitária de nossa espécie – e de todas as outras que convivem conosco neste mundo.

Na verdade qualquer uma das diferentes escalas da nossa vida tem relevância (em função das táticas/estratégias que em determinado momento estiverem em jogo) e elas englobam, ao mesmo tempo, perspectivas de esquerda e direita, até porque, concretamente falando, nosso olhar pode mudar de direção em qualquer uma dessas escalas. Assim, quando saímos à rua e olhamos e nos sensibilizamos com o morador em situação de rua, estamos olhando “à esquerda” do mundo. Se, ao viajarmos, olhamos também para os atendentes que nos recebem, os respeitamos e, de algum modo, nos importamos com sua condição de trabalho, estamos olhando, também, um pouco mais “à esquerda”. Os níveis desse engajamento mudam, é claro, conforme nossa predisposição e nossa condição de agir, efetivamente, em prol da redução das desigualdades.


Geograficamente, propomos que ser de esquerda significa treinar o nosso olhar para desenvolver sempre uma perspectiva geográfica que se importe:


- com o mundo no seu conjunto, ou seja, com a nossa condição terrena, finita e frágil, na interação de todos os seres, humanos e não-humanos, sem a qual não sobrevivemos – isso significa, de uma forma ou de outra, assumir nosso compromisso enquanto espécie que, ao mesmo tempo que toma consciência de que não tem privilégio sobre as demais, pois não é o único centro e não tem como “missão” o domínio da Terra, se transformou, obrigatoriamente, na principal responsável por impedir a destruição do planeta.


- com o Outro, independentemente de sua condição de classe, étnica, nacional, etária ou de gênero.


- com a condição social do Outro, o grau de desigualdade que se estabelece entre nós e os Outros.


E, o mais difícil, que façamos um esforço para efetivamente conhecer e nos colocar no lugar do Outro, partilhando de seu saber e nos solidarizando com seus dilemas.


Ser de esquerda seria então olhar e se preocupar em primeiro lugar com a nossa existência em conjugação à dos demais seres no planeta, reconhecendo e se sentindo responsável pelo sofrimento do Outro, e tornando-nos corresponsáveis por toda a situação que aí está – pois temos plena consciência de que é de sua transformação, em nome de todos, que depende nosso futuro e mesmo nossa sobre-vivência no planeta.


Isso significa olhar prioritariamente para o conjunto, para o coletivo. Em outras palavras, mais do que para o “social” (“social-ista”), que ainda nos separa da natureza, trata-se de mudar de perspectiva e ampliar nosso olhar para o comum, aquilo que é deliberadamente instituído como sendo usufruto e responsabilidade de todos. Se essa preocupação prioritária com o que deve ser comum (sob pena de colocarmos em xeque a própria vida no planeta) significa ser “comum-ista”, eu diria que devemos ser todxs comum-istas, “antes que a natureza [que também somos nós] morra” (título do primeiro livro “ecologista” que li nos idos anos 1970).


Não confunda, porém, esse comunismo do comum, da justiça social com liberdade e busca da maior igualdade, com o “comunismo” autoritário do consumismo e da desigualdade que países como a China dizem difundir. Nunca houve tanto consumismo e individualismo (ou seja, capitalismo) na China. Se isso é caminhar para o socialismo ou, mais ainda, para o comunismo, esqueça. O comum-ismo que precisamos construir não está dado, não tem receita de bolo (ainda mais universal) e se constrói na multiplicidade, no respeito aos vários mundos que continuam sendo construídos em busca de maior justiça e igualdade – o “mundo em que caibam muitos mundos” dos zapatistas. A unidade da luta pela defesa de nosso mundo comum passa obrigatoriamente, também, pela defesa da multiplicidade de perspectivas, de “visões/práticas de mundo” que a diversidade humana (e natural) nunca vai deixar de construir, no jogo difícil mas sempre desafiador entre transformação e conservação, na busca por um mundo melhor.

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